A Receita Federal quer fechar o cerco a
grandes contribuintes que fazem planejamento tributário. Essas empresas
costumam contratar especialistas para encontrar brechas na legislação que lhes
permitam pagar menos impostos. Segundo o subsecretário de Fiscalização da
Receita, Marcos Vinícius Neder, o Fisco quer colocar em prática o artigo 116 do
Código Tributário Nacional (CTN), que dá aos auditores o poder de desconsiderar
um planejamento tributário utilizado pelo contribuinte e cobrar dele os
tributos devidos integralmente. Hoje, quando detecta essa prática, a Receita
nada pode fazer.
- É importante regulamentar o artigo 116. Grandes
contribuintes não costumam omitir receitas. Eles têm uma política de boa
governança, mas fazem planejamento tributário, que tem efeito negativo sobre a
arrecadação - afirma o subsecretário.
Neder reconhece que a medida é polêmica e por
isso nunca foi posta em
prática. O artigo 116 do CTN precisa ser regulamentado como
lei. Uma ideia é propor a fixação de uma regra pela qual os contribuintes
tenham de comunicar à Receita o planejamento tributário que utilizarem. Esse
plano seria submetido a um colegiado e, caso a Receita não o aceitasse, o
contribuinte teria de recolher os tributos, mas não pagaria multa ou juros.
Diante da sensibilidade do tema, a Receita vai
realizar na próxima semana um seminário no qual discutirá a regulamentação do
artigo 116 com técnicos, especialistas e tributaristas. Daí, poderá sair um
projeto lei a ser encaminhado ao Congresso.
Especialistas apontam Risco de
insegurança jurídica
Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a medida é arriscada, pois pode trazer insegurança jurídica.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a medida é arriscada, pois pode trazer insegurança jurídica.
Segundo o tributarista Ives Gandra, a proposta
da Receita gera insegurança jurídica e fere o princípio da estreita legalidade:
- A Receita só pode desconsiderar o
procedimento que estiver vedado pela lei. Sobre o que está fora dela, nada se
pode fazer.
Para Gandra, a maneira de a Receita evitar
malabarismos das empresas para não pagar impostos é fixar regras mais rígidas
sempre que detectar um problema:
- Brechas na lei têm de ser fechadas. Não dá
para dar ao auditor o poder de decidir o que é ou não planejamento tributário.
Segundo o consultor e ex-secretário da Receita
Everardo Maciel, a ideia de dar a um colegiado o poder de decidir sobre a
conduta das empresas não é ideal. Ele defende, no entanto, uma saída
alternativa. Para Maciel, a Receita poderia estabelecer uma lista com tipos de
planejamento tributário. Quando o contribuinte utilizasse essa prática, ele
seria convocado pelo Fisco e chamado a pagar o tributo devido. Caso contrário,
não haveria cobrança:
- É preciso haver normas específicas contra a
elisão fiscal. Não dá para existir uma norma genérica. A igualdade fiscal não
pode existir às custas da segurança jurídica.
Um exemplo clássico de planejamento ocorre,
por exemplo, na venda de imóveis. O vendedor e o comprador fazem uma Sociedade em
que um entra com o bem e o outro, com dinheiro. Dias depois, o negócio é
desfeito, sendo que o vendedor sai com o dinheiro e o comprador com o imóvel. A
vantagem aí é para o vendedor, pois não há a cobrança de Imposto de renda (IR) de ganhos de Capital sobre
a valorização do imóvel.
Segundo Neder, o planejamento tributário é
muito utilizado pelos grandes contribuintes, que respondem por 70% da
arrecadação federal. Segundo o subsecretário, 42% dessas empresas declararam
prejuízo fiscal para pagar menos impostos nos últimos cinco anos.
Fonte: O Globo
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